Quando ele passava imponente em frente a retina do meu pensamento, me causava uma sensação de ligeiro desconforto que me remete ao tempo em que não fazia jus aos sentimentos que nutria por ele. E pelos tais, esperei pacientemente que ele os levasse em consideração nos seus cálculos (des)humanos de nivelamento e importância. Fiz dele um mundo colorido e verdadeiro dentro do meu próprio mundo negro e repleto de incertezas. E fugia para este lugar irreal que achava que tinha nas mãos (como uma caixa de presente) toda vez que algo em minha realidade me desagradava. Acabou, e na confusão do fim, tendo milhares de outras escolhas, também me acabei. Primeiro, perdida num combinado de esperança e medo, me rendendo aos caprichos dele e me tornando escrava das suas migalhas. Depois fiquei só, colhendo todas as flores secas que esperei que um dia ele regasse, com carinho. E me tornei nó, desses que arrancam impaciência de quem os pega assim, de surpresa, para desfazê-los. Respirando fundo, entre oms e outras preces, pedi que suturassem as feridas abertas da sua passagem ínfima, porém demasiado intensa, neste meu conjunto desenfreado de atropelos de bem-me-quer. Me dei por mim dentre os destroços de uma mulher que um dia, num passado que pouco me recordo, foi substrato de si mesma, pois antes dele e de tantos outros, eu me bastava e me supria. E num súbito clarão de entendimento pensei, porquê não retornar? Resgatando esse sentimento perdido, lutei feito uma louca pra me desfazer da escravidão na qual ele fazia uma considerável questão (e prazer) em me manter, sempre com um sorriso vagabundo e um olhar penetrante de satisfação. Contrariando todas as expectativas (principalmente as dele), superei, voltei a me amar e a me alimentar de mim mesma com todas as forças, inverti as prioridades, passei a enxergar a vida de um modo diferente do qual o cabresto dele me forçava a limitar. Hoje em dia, quando ele passa (insistentemente e inutilmente) em frente a retina do meu pensamento, no segundo seguinte realizo que tenho nas mãos a mesma caixa de presente só que agora contendo um vasto mundo colorido, cheio de tudo aquilo que sempre sonhei pra mim e que é por si só suficientemente capaz de me fazer extremamente feliz, que se chama: eu mesma.
c.t.
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